"watching my life on a screen" - Regression, Dream theater
Meus 20 anos
- cantei o hino nacional com 4 anos;
- já andei até a Fonte Petrópolis a pé;
- dormi em aula;
- já tomei 9 remédios num dia só;
- já conversei 8h seguidas no skype;
- já atravessei a feira tocando violão e cantando Josie com o Vitim;
- já pensei em fazer Ciência da Computação, Jornalismo, Direito...;
- já morei com uma americana e duas alemãs;
- já vi o sol se pôr abaixo de mim;
- já vi um esquilo saindo do lixo;
- passei vários dias sem comer, noites em claro;
- quase fui atropelada por uma ave grande;
- andei em várias chuvas, de propósito;
- já atravessei a avenida de cavalinho em meu amigo, com a coroa do burguer king.
- já tomei um litro de chá, mais café, red bull e tive tremores;
- passei horas na frente da fogueira na festa junina;
- já tirei 0,5 numa prova de biologia que valia 3;
- já misturei tarja preta com vodka e desmaiei;
- fui vestida de Morte para o pronto socorro, carregada por um amigo mafioso e um vestido de galinha;
- já fui acordar uma amiga na casa dela;
- já virei 400ml de coca cola num gole só;
- já dormi no shopping morumbi;
- já fiz bonecas de papel;
- já quis me jogar do prédio do Banespa, mas fui salva por uma rosa;
- já saí da aula pra tirar uma soneca;
- já tive um jabuti chamado Uguinho;
- já fiz natação, xadrez, kumon, inglês, japonês, tomei aulas de futebol e dança;
- usei chapéus e bengala;
- já fiz malabarismo com bolas de neve;
- já confundi amizade com paixão;
- já tentei ser poeta;
- já tentei compor música;
- já bati na minha vó com uma almofada pra matar uma lagartixa que estava nela;
- já chorei esganiçadamente num enterro;
- já colecionei pedras, lenços, chapéus, chaveiros, marca-páginas, moedas e cédulas;
- tive o armário cheio de roupas pretas;
- já tive que segurar o riso numa missa japonesa;
- já fui de conversar mais virtual que pessoalmente;
- já desci do ônibus espontaneamente e gastei 100 reais em anel;
- passei horas e horas na Sol maior faz mais de 15 anos;
- já fui de graça para o English camp, Petar, Bariloche e Harvard por méritos escolares;
- já falei pra professora que eu só ia ler o resumo;
- já falei pra professora que todo mundo só ia ler o resumo;
- já andei muito sem rumo;
- já peguei uma minhoca e saí correndo atrás da minha irmã;
- já passei cola, uma vez, talvez, ou meia vez;
- já dancei hocus pocus;
- tomei tombos na neve e nas dunas;
- já vi uma jaqueta da GAP por US$16, e uma havaiana por US$15;
- já troquei cartas com um amigo que fica a 10 min. de carro;
- já pintei folhas caídas com guache;
- já fui são paulina roxa;
- já fiz da Lira dos Vinte Anos minha bíblia de adolescente;
- fiquei duas semanas de cama, inchada;
- já brinquei com um pirocóptero que meu avó fez pra mim;
- já pesquei em alto mar;
- já andei a pé, de patins, bicicleta, patinete, carro, metrô, ônibus, trem, charrete, pau de arara, cavalo, bug, caiaque, ultra-leve, scuna, avião...
- ouvi e cantei muito spice girls;
- nunca quebrei nenhum membro;
- já telefonei 4h da manhã pra dizer que gostava de alguém;
- toquei com amigos violão e lata de lixo no intervalo do colégio;
- já pisei no que era impossível;
- já desviei minha rota só para passar na rua dele;
- já recebi poemas;
- já joguei muitas pedras na lagoa;
- já raspei o tacho de chocolate;
- freqüentei o divã;
- já fui ao mercadinho de madrugada, de pijama;
- escrevi carta de 9 páginas para ver o que era de uma amizade;
- já encaçapei duas bolas de uma vez no bilhar;
- já vi um rato preso num ralo, e era, na verdade, um passarinho;
- já mastiguei folha de coca;
- dei petelecos em tatu-bola;
- já comi vários trevos de três folhas porque achava gostoso;
- já acreditei piamente que eu podia voar;
- já apaguei num pub irlandês;
E ainda
- estudo Literatura; penso em estudar Psicologia;
- tomo aulas de piano, bateria, tênis, francês e japonês;
- moro sozinha até o final de semana;
- colo tudo na parede;
Vivi - 2:49 PM -
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Sexta-feira, Fevereiro 01, 2008
Pegou de mim todo o fôlego e foi embora.
Como não me vieram palavras suficientes, filmei.
Respiração
Vivi - 2:45 AM -
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Sábado, Dezembro 22, 2007
"I'm gonna hold on for the rest of my days
'cos I know what it means to walk along the lonely street of dreams." - Here I go again, Whitesnake
Por enquanto...
O ano mais forte da minha vida. É só e é muito. Mudou tanta coisa, e tanta coisa teria que mudar de novo, não de volta, mas de novo, que sinto ainda um tédio enorme de ver a vida passar, seja se arrastando, andando, pulando, correndo, dançando, e nada faz a diferença. Teria de haver um jeito novo de andar a cada passo, de pular a cada salto, de dançar a cada compasso, e ainda me enjoaria. Teria de ser desritmada. E é muito pro meu coração.
Os próximos três anos talvez sigam o mesmo movimento. Tenho medo.
Preciso de uma emoção extraordinária. E tenho medo dela também. Anseio e receio uma mudança grande. Daqueles choques que fazem o coração se reanimar depois de uma morte temporária. Assim temporária e passageira tem de ser essa morte.
Mas é tudo tão repetitivo que cansei de morrer e nascer...
Vivi - 3:05 AM -
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Quarta-feira, Novembro 14, 2007
"But you see: this sick will stick
'cause it's me" - Scarsick, Pain of Salvation
Agulhas no corpo, vagalumes na cabeça
Passso mal: esguichos e palmas em concha de água gelada não podem amenizar por mais de dois segundos ou o tempo que a água leva para escorrer e o rosto para esquentar as gotas restantes.
Às vezes culpo o coração. Bate tão desajeitadamente forte que empurra o corpo inteiro num balanço desconfortável, numa maresia nauseante que coloca a cabeça e os olhos num desequilíbrio em terra firme, o corpo num espasmo trêmulo e febril. O pulso numa força enjoativa, desesperadora.
Bate, no susto, brinca de gira-gira com meu cérebro, leva o organismo num descompasso desagradável e eu fico tonta, quero cuspir, quero vomitar, quero dormir, que ainda parada sinto as ondas me conduzirem, ainda estática o coração sofre, ainda sozinha danço em inércia arrastada pelo balanço enjoativo do amor.
Vida desmasiadamente amarga para um paladar que anseia por um beijo doce.
Vivi - 12:09 PM -
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Terça-feira, Outubro 30, 2007
"What I am to you is not real
What I am to you you do not need
What I am to you is not what you mean to me" - Volcano, Damien Rice
Vulcão
Pés de chuva. O cafuné do chapéu é o único à enxaqueca dos olhos. Fecho-me na escuridão de minhas pálpebras. Tateio em vão a música: inalcançável. Estende-se a mão, que também esbofeteia. Efeitos colaterais dos sons e de todos os remédios intácteis. Não há surdez proposital que não seja o sono.
Vivi - 12:46 AM -
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Segunda-feira, Setembro 24, 2007
"You know my name, you know my face, you know my touch
You know my voice, you know my words
And you know where we stand
I'm not your man, I never was
And I dont answer any questions." - Don't ask, Richie Kotzen
Delírios do hipnótico, Campinas
Décimo nono
Preciso renascer, mas esse processo já começou tão errado...
Vigésimo
Ainda estou morrendo aos poucos e isso ainda é incrivelmente angustiante - é que tudo se faz aos poucos e aos poucos não vivo: viver aos poucos está a um passo da morte.
Existir não basta se não se acompanha com Vida tal existência, se não se envolve a essência em toda essa sensação de Ser.
Vigésimo primeiro
A adolescente e a adulta se encontram num só sentimento, duma louca doente e sem culpa, perdida no tempo.
Vigésimo segundo
Ando repousando constantemente a cabeça sobre os livros pois desrespeito o sono. Sou insanidade e falseio o gosto da vida. Que teu brilho me aqueça se eu acordar no frio. Queria poder descansar em paz, sem saber se amanhã existirá ou não.
Vigésimo terceiro
De resto, entrego-me à inércia do tempo, que passa conforme durmo para ele passar. Assim tem funcionado, assim tenho funcionado.
Vigésimo quarto
Sinto as ausências prolongadas. Quero ver colegas, abraços amigos, conversar e brincar, brincar feito gente grande, mas estão tão longe e sem tempo para a saudade, sem tempo para a saudade...
Vigésimo quinto
Incrível como as pedrinhas limpam meus sapatos da lama que a chuva faz da terra.
Queria que os panos de chão fossem descartáveis. E que a geladeira fosse menos barulhenta, porque assusta.
Conversei com um amigo e foi muito bom. Às vezes a vida tem dessas surpresas que a deixam justamente viva.
A vida, também, de repente, de surpreendente vira tediosa porque o bom se torna razoável quando se acostuma.
Agüento.
Agüento? Talvez. Será que tenho feito um esforço supremo? O corpo explode em enxaquecas e nódulos. Agüento? Responda-me se vivo ou se morro.
Os dois, não? Se vivo mais que morro é o que tenho tentado e não sei se me engano. É o risco, o último risco que me permito correr. Arrisco viver, se me entende, pois é tudo tão perigoso que dá medo tentar. E morrer é mais tedioso ainda.
Vigésimo sexto
Realmente não creio estar doente e quero pedir alta ao meu psiquiatra.
Mas loucura é doença ou um estágio de plena liberdade? E nem sei se isso é bom e se me importa porque não creio estar louca tampouco.
Vigésimo sétimo
Tudo faz sentido pra você, anjo? Sei lá se os anjos entendem o sentido das coisas - não sei nem se as coisas têm sentido, já que o grande propósito da vida é nulo. Digo, o propósito é sobreviver, ou viver bem a própria vida - então o sentido dela se faz nela mesma e é tudo tão louco. Existir é tão obrigatório e, esse sim, não tem sentido, uma vez que não é tão auto-suficientemente-explicativo como a vida em si.
Vigésimo oitavo
Que crueldade faz o mundo de mim e faço eu com o mundo. A inadaptação é recíproca, mas sou tão obviamente menor e, definitivamente, mais fraca que sinto, e como sinto, esse aperto sufocado que não me engana - não é abraço -, é morto e quer me levar para o tédio do resto do mundo. Crueldade e exagero meu, claro.
Vigésimo nono
Guardo os pedaços que morri numa caixinha com cadeados chamada Passado. As boas vidas ficam em uma caixinha menor chamada Lembrança. Ou maior? Não sei, tenho medo de olhar o que morri. É que, também, engoli a chave. Quebrar o cadeado é uma agressão que machuca o Ser inteiro, independente do Tempo. O Tempo, alias, devia fazer-se só pelo Agora, o instante absoluto, e que ele só seja contado como instante se realizar-se em sorriso. O resto é tédio e espera. Sorriso, eu digo, mesmo interno, do humor colorido ou preto-e-branco. Às vezes eu mesma sou daltônica para não enxergar alguma cor feia.
Trigésimo
Que eu viva de repente, porque só assim sobrevivo e morro todo dia, para renascer sem rancor de mim mesma.
Trigésimo primeiro
Que faço eu da minha situação a não ser assistir. Pois qualquer movimento voluntário me causaria igual arrependimento - a falha é inevitável. Falho mesmo sem fazer nada e fazer pioraria, jogaria-se a culpa sobre mim e tiraria meu futuro do acaso.
Não posso traçar qualquer futuro nem me entregar aos caprichos das escolhas.
Sigo o caminho de pedras na direção em que o vento me empurra. Fecho os olhos eventualmente.
Diminuo.
Escondo-me por uns dias no Meu Próprio Manicômio.
O que está por vir é sonho curto do qual se acorda lamentando o fim.
Trigésimo segundo
É tão bonita e eu amaria a Amizade se ela não estivesse ocupando o lugar com o amor, já que o Amor é de quem acredita para quem acredita.
Se alguém me buscar, quem sabe eu ande. Mas olharei o céu e me entregarei à vontade inerente de ficar admirando as estrelas. Assim longe, o céu é até mais bonito e mais estrelado. Sim, de longe os defeitos se escondem em saudades platônicas.
Trigésimo terceiro
É que minhas fugas de vida não estão mais sendo o suficiente, como uma anestesia que perde o efeito, ou um antidepressivo que vicia e o efeito diminui. Preciso de consolo em dose aumentada.
Trigésimo quarto
Posso culpá-lo por essa dor?... ou a culpa é da sua ausência...
Trigésimo quinto
A fuga de mim mesma me atormenta. Corro, disparo, engano, mas olho para trás, digo, para dentro, e lá estou, igualmente arfando e pedindo trégua.
Trigésimo sexto
Amar... não sei, se diminuir o sentido cultural novelístico-literário da palavra, quem sabe então eu sinta e tenha em mim amor.
Amo as migalhas de tempo e amizade, sigo a trilha pela qual elas estão espalhadas porque parece que esse caminho desconhecido vale a pena.
Parcialmente desconhecido, já que o final é o meio. Migalhas em um caminho em círculo.
É que são o suficiente para alimentar o sentimento.
Trigésimo sétimo
O resto é prata ou bronze. O resto é quase. É sentimento da cabeça.
Trigésimo oitavo
Piorar é tão fácil.
Trigésimo nono
Como eu queria estar sendo testada sem saber, e caso fracassasse não me sentiria fracassada, caso sucedesse não me sentiria vitoriosa mas desfrutaria do prêmio.
Quadragésimo
Estranho ver em seu corpo a roupa que já tirei, ainda sentada ao seu lado sem poder abraçá-lo ou agir como se fôssemos naturalmente íntimos como fomos em certas noites.
Você dissimula, eu dissimulo também. O coração é esquisito e o ama de qualquer forma, em carinho ou em distância. A cabeça, no entanto, perturba-se - quantas já não o despiram como eu, naturalmente tão íntimos em noites diferentes, beijos mais quentes, corpos numa sintonia diferente da que temos.
Eis que você pega minha mão por uns segundos e a segura entre as suas, sobre seu colo. E eis que esse tempo imperceptível aos outros, e talvez até para você se o gesto foi automático, foi tão precioso que me fez amá-lo também em meio àqueles pensamentos.
Quadragésimo primeiro
Fica tão gostoso fechar os olhos e suspirar que queria ignorar o tempo e
simplesmente me entregar a isso - às vezes não estou onde queria, e fechar os olhos é um descanso do mundo.
Quero viver nesse sono, de olhos fechados, sem dizer mais nada, sem ouvir mais nada que não seja música ou palavras de amor. Que não encostem em mim se não for toque de afeto.
Quadragésimo segundo
A realidade pode ser amenizada se eu tiver liberdade suficiente para controlar os aspectos controláveis da vida própria.
Quadragésimo terceiro
Todo o resto é segundo plano, faculdade, amizade. Tudo me é indiferente. Pouco me afetam e recebo-os e trato-os com uma frieza repugnante, respostas monossilábicas de quem tanto faz dar sua companhia ou se ausentar.
Quadragésimo quarto
E ele descreve seus outros casos de forma tão racional que acho engraçado - a graça esconde as decepções; ou, do que já era esperado, as confirmações e, curiosamente, isso não muda o que eu sinto.
Quadragésimo quinto
Preciso achar paz em alguém. Quero a paz de um abraço - sentir esse conforto e essa sensação de vida apenas com a presença - mas não há - há só o abraço tão momentâneo, tão momentâneo. E são poucos os abraços cheios. Tanta gente pra mim é tão vazia que não há vontade de tocar, na futilidade do social básico. Creio que seja eu o ser vazio, então, vazio do que enche a pessoas, vazio de perspectiva de futuro.
Quadragésimo sexto
Há apenas o sorriso que se abre por costume, contraem-se as bochechas, como a risada que sai para quem ouve, não para mim. Não rio a risada que não se pudesse calar, nem sorrio o sorriso que não se pudesse evitar, e nessas máscaras me escondo de qualquer coisa que não sei o que é, talvez o mundo.
Assim escondo, não a tristeza, que não sou mais triste, mas a falta de graça que vejo nas pessoas, e diminuo minha desconsideração por aqueles que me freqüentam.
E creio que eu não freqüente ninguém, o interior. Devo ficar na superfície porque não convivo a ponto da pessoa me conhecer o suficiente para me convidar a entrar ou bater a porta na cara. Queria saber invadir, mas fico fora e não sei se me importo em ficar fora.
Quadragésimo sétimo
Uma fuga de qualquer contato mais intenso e verdadeiramente entregue às pessoas que não tenham feito isso a mim antes. Quero amar só quando for em retribuição.
Quadragésimo oitavo
Sou um corpo fraco que quer morar no espaço mais bonito do mundo que é o pequeno vão entre um corpo e outro num abraço apertado.
Vivi - 11:12 PM -
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Quarta-feira, Setembro 12, 2007
"It all comes back to you
Is this all I am?" - Idioglossia, Pain of Salvation
Cansei, cansei, e dormir não é o suficiente.
Vivi - 1:49 AM -
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Quarta-feira, Agosto 15, 2007
"Memory history agony
Let me see that hideous
Idioglossia that formed me" - Idioglossia, Pain of Salvation
Quanto ao tamanho do texto... Não sei, não sei mais nada, mais nada.
Estive andando por mim mesma tentando me encontrar pra conversar comigo sobre quem eu era e como eu fui ser o que sou.
Não dos meus reflexos, das minhas decisões de ser - que funcionaram ou não -, do que sei de onde me veio certas partes que me compõem, não, mas de fatos. De vida, não da cabeça, mas fatos, história mesmo de acontecimentos que... não sei aonde quero chegar, na verdade. Quero chegar em mim, mas de onde estou é impossível me alcançar. Se me vejo, estendo a mão e me desfaço em fumaça, como o passado que se faz vago, como o sonho que se esquece parcialmente e se confunde - assim funciono, assim é minha tentativa de entrar em contato comigo, de gritar para mim e não ouvir, não ouvir..., não sei se existo porque não escuto minha resposta. Nem um eco, nem ao menos um eco...
Enfim, cheguei a doismilecinco nos meus dezessete anos e talvez esse ano tenha sido minha gestação, para um parto que só se deu dois anos depois: talvez um mini-universo do que seria de mim, do qual brotaram reações e mais eus, que se desdobraram e se perderam, e que esqueci de procurar. E agora tenho que me perguntar. Perdi uns pedaços, e, da impossibilidade de recuperá-los, quero que eu me responda quando, ai de mim, quando esses pedaços começaram a virar parte de mim. E por quê.
É que em doismilecinco fiz a maior amizade que tive e perdi, e morri dela, e chorei. - Disso renasci esse ano descrente, fria e distante de qualquer contato entre minha alma e a alma de alguém que ... talvez por trauma ou proteção, mas renasci mais idiossincrática e indiferente.
Vi shows das bandas do coração e senti que podia haver paz e sorriso. Conheci o Frappuccino, minha falência. Comecei a freqüentar o divã e engolir comprimidos.
Foi que também passei dois meses só, e dias sem comer e noites sem dormir e disso surgia meu conformismo quanto à rendição: a vida enquanto reflexo da vontade ou da sua falta.
Foi que também assumi finalmente que, sim, era verdade que eu gostava, deixava-me apaixonar e que tinha medo de que fosse amor e por isso me desiludi e, de uma desilusão fiel que se prolongou por dois anos. Ou três...
Foi também que me reconheci não mais nas exatas, mas na humanas, que me obcequei pelo Che Guevara e comecei a me interessar por Schopenhauer.
E penso, depois dessa regressão óbvia (porque consultei minha Retrospectiva2005), o que mais aconteceu aqui. É que o sopro de vida que me deu a luz levou alguns farelos e uns pedaços dos quais me desfiz sem saudade nem rancor, e, no entanto, ao mesmo tempo, sem entender que pedaço era aquele que se tornara inútil ou desprezível.
Pois pulei um ano da gestação ao parto. O intermédio doismileseis foi ... não sei o que foi, um ano em que me desfazia de mim como que perdesse uma camada, cortasse os podres e restasse um teco de pouca força, suficiente apenas para a sobrevivência do feto que não sabia se ia nascer ou morrer.
E cá estou, cercada de pôsteres do Che Guevara, livros do Schopenhauer que não entendi, de sorriso regados, não mais pelos shows que não se repetiram, mas pelo Grande café frappuccino com mais um xote de café e chantilly, com dois pês, dois cês e dois elles e ípsilon. Cá estou sem me entregar às amizades e vendo nisso uma perdição que vale a pena, como salvação premeditada. Como medo, como medo... Porque do parto vieram os pensamentos e as filosofias de vida, mas sobrou tal medo, não do futuro, que sou ponto hedônico, sem o passado a que eu chamava Saudade, sem o futuro a que eu chamava medo. Pois que o passado se restou em trauma, e o futuro em um medo novo, medo traumático.
Enfim, nasci com cicatrizes.
Cresço com a cabeça nos livros, o coração no Outro, os braços no abraço do amigo que não quero amar, pés enterrados, pés enterrados...E de que adianta saber quantos e quais pedaços perdi ou de que matéria fui feita, se eu tenho a certeza de que é indiferente gostar ou repulsar o que foi percebido em mim, que tudo nisso é imutável segundo minhas vontades, segundo suas próprias vontades, que pareço desconhecer profundamente, mas que tento obedecer prontamente na esperança de que a realização vá me aproximar de mim.
Vivi - 6:33 PM -
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Domingo, Julho 15, 2007
"Quem sabe faz a hora, não espera acontecer." - Pra não dizer que não falei das flores, Geraldo Vandré
Delírios do hipnótico, São Paulo
Primeiro
Agora me levou além, e além quero permanecer enquanto puder.
Segundo
Fui ter com uma Flor que não se cheira, mas tão cheirosa que concordei comigo mesma em continuar respirando o perfume ainda sabendo do perigo.
Como pode algo assim estar no paraíso, fruto proibido que provo com gosto. De uma estranha perfeição - por ser compreensivelmente imperfeito - por não ser Flor que se cheire, aí está o defeito. Ainda assim respiro fundo, suspiro realizada e satisfeita como nunca, por sentir o cheiro da Flor mais rara do jardim.
Que eu esteja segura de que meu coração não vá ser sufocado por uma erva daninha, ou espetado pelos espinhos de uma rosa.
Que fique o perfume no ar que respiro, mas longe do coração.
Assim possa, talvez, haver paz.
Terceiro
É que não sei mais se assumo ou não que esse é um sentimento tão longo e tão forte que não me satisfaz completamente - por migalhas - como eu tento me convencer gritando-me que é tudo quanto eu tenho nesse mundo e que devo talvez, não sei, passar tempo com algo diferente, mesmo gostando mesmo de uma paixão infinda: coração inevitavelmente fiel - que a boca, pois, não seja. Distração.
É tudo tão errado que preciso me contradizer para acreditar que estou, de fato, satisfeita.
Quarto
Tenho a maior alegria e a pior esperança.
A vida, que sempre tento encontrar nas frestas das obrigações, é só uma espera pelo próximo sorriso.
Quinto
Minha saúde, saúde! - brindemos à melhor fase da minha vida.
Ah. Devo brindar a mão direita com a esquerda e entornar as duas taças, porque ninguém vê o fato digno de comemoração.
Sexto
É que eu queria saber o nome de todas as estrelas - e isso, para mim, seria a maior das intimidades com a noite. É que às vezes elas se apagam. As nuvens são o curso natural das coisas, e o sopro de vida que me fez não é o suficiente para dispersá-las.
Feliz desilusão que mantém meus pés no chão. É que a realidade é tamanha que tenho medo e enterro os pés na terra suja.
Perco-me nas contas e volto ao zero apaixonadamente como se fosse a primeira vez a contar estrelas.
Tão pequena e tão longe que sou apenas mais uma para o céu. Que ao menos ele seja o mesmo para todos os olhos. Lidar com infinitos é complicado porque são de todos. À Terra, ao Céu e ao Mar somos tão minúsculos e, no entanto, apaixonados que felicidade maior não haveria se da terra brotasse uma flor em tua frente, se as ondas te cobrissem num abraço carinhosamente, se o céu... o céu... tão alto. Não sei o nome de todas as estrelas. Se o céu...
Ah se o torcicolo não fosse um aperto no coração!
Sétimo
É tudo tão relativo que não há regras. Talvez a vida seja feita pelo curso natural das coisas somado aos improvisos dos não-conformistas, dos que não foram engolidos pelo próprio curso natural das coisas. Não muda nada.
Tenho insônia e as estrelas não dormem hoje.
Oitavo
E realmente sinto. Sinto tanto que... Sinto tanto que. É, bem, sinto muito.
Nono
Estranho isso, o medo. Dele, de mim, do piano, do tempo. Talvez Ser precise de mais concentração.
Vivi é pretérito perfeito.
Faça valer a pena. Considerar a vida uma pena é muito verdadeiro.
Décimo
Engano-me com a falsa auto-suficiência.
Décimo primeiro
Devo correr o risco. Correr, mas pulando alegremente e sapateando tirando sarro do próprio caminho. É que a corrida cansa e sapatear dá dores. Conseqüência - o risco em si.
Continuo na contagem regressiva por um dia que nem sei se vai existir.
É que quero mudar as estrelas de lugar.
E que faço eu se não posso fazer nada - não posso fazer nada. Não posso e não sei por que não posso e rompo com as regras e faço nada - não posso fazer nada - e fico também numa improdutividade que tem se prolongado exageradamente. É que existe o Tempo, e o relógio do mundo funciona diferente do meu, o relógio da Vontade.
Valer a pena? Pena é pior que raiva. Pena. Queria uma caneta de pena para ser poeta.
Décimo segundo
Sei sim o que é. Segredo, não contarei nem a mim mesma porque é melhor não pensar nisso.
Cortar a memória visual, a imaginação, tapar os ouvidos que me perseguem com aquela voz lá.
Décimo terceiro
Segue-se o silêncio. Ao menos deixo de ouvir o mundo ao redor - e desconcerto-me de repente pensando, desejando, recusando - tudo errado, tudo errado como sempre foi sobre isso.
Situo-me entre o possível e o impossível.
Meus sopros de vida levam alguns farelos de mim.
Décimo quarto
A poesia me beijou.
A música, a música. Minha perdição.
Décimo quinto
Mas viver tem seu objeto direto: a Vida, se chamar de vida apenas o que é digno desse nome.
É que viver não é intrínseco. Existir sim é obrigação e inerente aos que nascem.
Um dia, que loucura, posso então morrer sorrindo. Falta só conseguir tocar a sonata Patética.
Décimo sexto
Escrevo repetidamente como se eu pusesse no chão todos os meus cacos para ver o que tem lá, quão desorganizado está e se é possível remontar ou se faltou uma peça. É que tenho desânimo e simplesmente deixo os cacos no chão e piso - fecho o caderno e não leio mais.
Décimo sétimo
Que possa gostar, mas no pensamento de um mudo que não pode gritar que ama, nem quer murmurar com um suspiro rouco que denunciaria a dor.
Talvez a caneta seja realmente o trombone; as palavras o discurso, a música o grito, o poema o choro engolido.
Sorrio tanto que perdi a noção de sinceridade.
Décimo oitavo
Preciso finalmente voltar a pensar na vida pelas minhas últimas ações, conduzidas por uma submissão que eu achei que não suportaria: submissão de comportamento. Não um fantoche, apenas tenho os olhos vendados - dou-lhe a mão para que me que me conduza e carrego aquele sorriso de quem espera uma surpresa bonita ao tirar a venda.
Tenho que assumir sabiamente e racionalmente a função de ponto. É que virei um ponto cego.
Talvez disciplina e questão de ética da função de ser-humano.
Deixo ser e acho que as coisas sendo elas são certo, como conseqüência de uma decisão velha ou de uma batida de coração de alguém.
É que ele é parábola e esconde a fórmula.
Outros décimos e vigésimos ficaram em Campinas.
"Os amores na mente, as flores no chão."
Vivi - 2:18 AM -
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Segunda-feira, Junho 18, 2007
"And we were always much more human than we wished to be..." - Beyond The Pale, Pain of Salvation
Cabeça no trombone
Vocalista bom é uma espécie rara. Ir ao banheiro e o papel higiênico acabar estressa todo mundo, mas se ele estiver lá nem é nada demais. O ser humano é egoísta por natureza, embora "egoísta" seja uma palavra criada com sentido pejorativo pela própria humanidade, não com a intenção de se autodefinir. A humanidade, aliás, é suicida, embora essa também seja uma palavra de conotação pejorativa, criada pela humanidade não com a intenção de se autodefinir. Irônico como o ser humano, na sua grandeza, é tão fraco frente aos menores seres existentes, bactérias e vírus, colocando à parte aquela questão sobre vírus ser ou não um ser vivo por só ter aquela maldita da "capinha protéica". Guitarras fritadeiras já não surpreendem mais e até enjoam. "Cultura" costuma ser tão valorizada e mantida por orgulho, enquanto é predominantemente composta de costumes ruins, herdados culturalmente sem perceber que muitos vícios também são cultura. Ninguém gosta do primeiro gole de cerveja, nem da primeira tragada, nem da primeira vez. Ainda assim, teima-se em aprender a gostar - cultura. Fica bom com o tempo - vício. Poucas pessoas olham nos olhos o atendente de loja, o cobrador de ônibus, a faxineira. Geralmente olham mais fixo até para a máquina de estacionamento de shopping esperando ela cuspir um ticket. Todo post em blog espera comentários e se desilude fácil fácil. A vida é feita de obrigações. Porém, dizer que viver é obrigação de quem nasce é visto com maus olhos. No fundo todo mundo age como capitalista.
Vivi - 12:27 AM -
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Domingo, Maio 13, 2007
"All the miracles of the water
Are the miracles never seen" - Carolina IV, Angra
Carta
Algum lugar, em qualquer data da infinitude.
Fulano,
sabes que só te escrevo porque sei que tu não existes.
Não posso deixar de agradecer tamanha compreensão que tens comigo, esse entendimento que não pertence a mais ninguém. Tu penetras minha carne e enxergas a essência, quase a apalpá-la carinhosamente com essa mão pura e desintoxicada do mundo. És o único que não me toma como perturbada negativamente e percebe como estou bem resolvida comigo mesma. Acreditas que me pensam rebelde sem causa, ou até doente? Pois sou mal aceita, meu jeito de ser é recusado.
Tu, só tu podes me abraçar sem segundas, terceiras, quartas intenções. Um abraço, não de consolação, não de proteção, não de dó, muito menos de amor: não quero teu amor, Fulano, e não mo ofereças - tu sabes que eu o recusaria por não ter onde o guardar; não tenho mais coração.
Ah, Fulano, como te compreendo também. Pelo um só fato de tu me entenderes, entendo-te de volta numa reciprocidade inevitável.
Lembras-te que não foi tão fácil, não? Minha recusa, meu medo, minha hesitação. Não acreditava que alguém pudesse me conhecer com a mente virgem, até que apareceste, Fulano, oferecendo-me uma... - não sei dizer - uma coisa boa e infinita. Agora vejo essa conquista com graça e gratidão. Tu és tão livre e limpo de qualquer sujeira humana, que conseguiste cortar minha crosta e procurar meu coração. Não o acharas, era tarde. Mas tu, com isso, entendeste-me mais ainda. Fulano, tu vês cada surpresa minha e em vez de te decepcionares concordas com sinceridade, e a isso não sei como retribuir.
Acabamos por ficar com tanta intimidade que não preciso te explicar mais nada. Fulaninho, obrigada pela amizade imaginária. Retribuo-te com minha insanidade saudável.
Quando te encontrarei pessoalmente?
Ps: como não sei teu endereço, joguei beijos ao vento e deixei a carta numa garrafa errante pelo oceano eterno.
Vivi - 10:50 AM -
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Quarta-feira, Maio 02, 2007
"I hate these hands soaked in blood
(...)
How it hurts to become clean." - Reconciliation, Pain of Salvation
A pena
Pinto-me com meu próprio sangue; quero cobrir-me de vida.
Em três segundos morro de novo, de tinta marrom e fria, maquiagem endurecida: assusto-me com minha aparência ainda mais cadavérica.
Rasgo-me a pele - e isso é uma tentativa de vida. Que escorra o sangue e o escarlate me emocione.
Pouco.
A tintura seca e me mata junto.
Cada vez mais defunta, de uma crosta horrenda, lavo-me desesperada. Esfrego forte: a morte desbota um pouco. Ufa.
Restam cicatrizes que ardem no banho da renascença, depois secam e não olho mais - preciso desconhecer minhas mortes para não me descobrir extinta.
Quero ser vermelho vivo e preciso que escorra o sangue rubro do meu próprio corpo. A morte, a ardência, a cicatriz são conseqüências que preciso ignorar para que valha a pena ser feliz.
Vivi - 7:08 AM -
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Quinta-feira, Abril 26, 2007
"Ni le vieux livre, elle ballance
Sur le plumage instrumental,
Musicienne du silence." - Sainte, Mallarmé
Anti-fio-teses (o fio entre as antíteses)
Fumaças de azul e vermelho se misturam numa confusão gostosa de sonhos e pesadelos leves. Acordo só para isso, no entanto; mente adormecida no tédio da vida entregue ao tempo do mundo cujo fuso me desgasta. Assisto ao incenso: cinzas e perfumes, assim é a vida.
Pronta estou para a imperfeição pois a aceito com os sentidos apurados - que a sensação exista enquanto houver ensejo.
Voltam a me encarar ameaças antigas. Sou o fio quase invisível do limite entre o riso e o choro. Mas a lágrima já me há tingido os dentes de amarelo.
Separo os extremos com essa linha amarelo-transparente.
Escorre do cabelo a água do banho, e que estálido faz, tão semelhante à madeira queimando - chove em minha cabeça; nos pés, fogo.
Limite entre o ser e o não ser (eis sempre a mesma a questão). Contorno a loucura num magnetismo incoerente e circular. Escuto com desgosto minha sinfonia só de diminutos - musicista do silêncio , seria melhor.
Tudo tem sido tão superficial que pouco me atinge - perpassa a linha num balanço de torta harmonia . E nessa completude, estufo o peitoral para encarar as ameças. Tornado. O fio se rompe - o vento me empeita; fico gripada e quero morrer dessa doença boba.
O negócio é ver fumaças dançarem.
Encolho o peito, dobro o corpo, abraço os joelhos e fico no canto.
Vivi - 4:38 AM -
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Quarta-feira, Abril 11, 2007
"I lie awake watching your shoulders
Move so softly as you breathe." - This heart of mine, Pain of Salvation
O que mais há para ser vivido
Mais de um mês.
Acho que alcancei o Nada. Poucas e tantas coisas houve nesse meio tempo, que me perdi nele, entre a vida dupla que tenho levado, na pessoa uma que tenho sido. Entre a sujeira da casa mal varrida, da cabeça igualmente abandonada que não dorme em paz, nem lê, nem lê!, entre a dona de casa atarefada, a universitária, a filha de São Paulo, a musicista frustrada, eu me perdi mais uma vez - em mim mesma, pois tenho me desdobrado tanto que já não sei em que parte está a essência. Ela existe, porém, está próxima, ali, com várias agulhas me espetando escondida, sussurando-me (a essência) bobeiras e verdades em que temo acreditar. Minha essência ainda está em busca de algo nessa vida e para mim já não há mais nada.
Aqui estou eu, mais uma vez, no nada. Tenho existido tão bem, de uma vida tão premiada que devia estar pulando e dando gritinhos de alegria em vez de sentar e escrever sobre nada. Esperei tão pouco, do meu processo de renascença que iniciei esse ano, vim da desilusão, do nihilismo e não quis nada: quis o que viesse. Veio tudo. Veio o abraço que já tinha dado por morto. O beijo da bochecha veio para os lábios - e eu que tantas vezes já me perdera na contagem regressiva que fazia para
aquele dia que não ia existir. Existiu. O que mais há fora isso, nada, ainda bem.
Devo ter alcançado tal nível de completude e só não me resolvo porque me perdi no nada que restou de mim.
Vivi - 12:55 AM -
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Sexta-feira, Março 09, 2007
"If youre leaving close the door.
I'm not expecting people anymore." - When a blind man cries, Deep purple
Rascunhando insonemente ruim
No meio do caminho havia pedras. Andava por aí de olhos baixos, perdidos no infinito, sem foco. Chutava a pedra mais próxima ao passo seguinte, escolhendo automaticamente aquela que tivesse o tamanho ideal: não podia machucar o pé, nem ser tão leve ao ponto de perder a graça chutá-la. As mãos no bolso davam um ar de desânimo; cheias de medo, preferiam esconder-se naquele cantinho de tecido junto ao corpo.
Não via nada. O chão e as pedras nele espalhadas formavam apenas aquela imagem abstrata, da vista de quem olha por olhar, vê por coincidência e sem prestar atenção. E lhe era o suficiente para continuar andando.
Ouvia, também, nada mais do que o choque das pedrinhas - o impacto do chute, seguido pelo barulho da queda no chão. Outros sons pouco chegavam; se ouvia era vagamente, sem esforço, sem perceber. De noite, havia o canto monótono da coruja. Assemelhava-se tanto a um humano que o assustava: chutava no escuro com medo de se confundir a pedra pela coruja. Quase sempre o desespero lhe fazia acertar somente o ar. Caía e ralava as costas nas pedras, sob o som da coruja, indiferente. Talvez fosse melhor que ela risse. Ela continuava como se tivesse dó ou mal percebesse sua presença.
Na claridade era sempre o mesmo jeito vago e aéreo de andar, chutando pedras, olhos baixos e mão no bolso. Quando as pedras ameaçavam ficar escassas no caminho, conduzia a última pedra com uma atenção um pouco maior nos pés - não podia chutar muito longe, tinha preguiça de andar, afinal. Preguiça ou incapacidade, não testara.
Se parava, mentalmente reclamava do sol. A pele ardia, por falta de costume daquele calor. Ainda bem que as mãos estavam protegidas. Quase que como por reflexo, como se o cérebro aproveitasse o próprio início de exercício, ele erguia os olhos para ver mais. Erguia, mas se erguia fechava um pouco para proteger da luz, e nunca parava no foco correto, um pouco antes, um pouco antes para não enxergar tudo: tinha medo de não ver nada. Voltava às pedras.
No fim do caminho foi que chutou a pedra a última vez, para um canto, ouviu seu último estalo e mal soube se ela se partiu ou não - não reparou, pois chegara. Entendera. Não mais olhou para trás e tanto fazia, então, se era um pedregulho ou um diamante.
Vivi - 1:21 AM -
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Sábado, Fevereiro 10, 2007
"I know, I never leave you, babe.
But I got to go away from this place, I've got to quit you." - Babe, I'm gonna leave you, Led Zeppelin
A questão é que
Morri. Costumava dizer que morria aos poucos e o pouco de mim que havia foi-se. Restou-me um ponto, o auge, minha existência inteira de forma pontual, independente da dimensão tempo. Os três tempos da vida misturados, comprimidos: saudade (passado) e medo (futuro) são tudo que sou, seja antes ou depois.
.
Confesso que não sei se estou ainda morrendo. A questão é que ainda dói. Morro sempre de saudade e de medo - morro de mim mesma.
Uma possível renascença, e que isso não seja considerado fator positivo, e se dói igualmente, que seja logo. Viver aos poucos, como morri aos poucos, é um limite angustiante - um abafado sufoco claustrofóbico dentro de mim.
A questão é que o ponto em sua totalidade é um ponto crítico, na condição de doente, como se Ser fosse uma grave desobediência. Sem permissão, sou. Quero viver outra representação, talvez, da vida, que eles não enxergam - tal vida em uma pessoa, uma sensação, uma forma de arte sensivelmente forte, cujo sopro dá a luz mas também mata.
Assopre. Ou da magia de tal sopro renasço; ou vou embora com o vento.
Mas assopre;
Preciso de um sopro de vida.
Na minha torta existência, continuo morrendo aos poucos - vivendo presa no medo e na saudade, (nada mais do que em minha própria torta existência): .
"Fica tranqüila."
Vivi - 11:20 PM -
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Quinta-feira, Dezembro 21, 2006
"Can't believe it's a matter of days." - I surrender, Rainbow
Vômito
Perigo. Uma mudança de obsessões tão rápida que me faz concluir que preciso, de fato, sofrer e ainda deixar o coração acusar alguém, cuja imagem elevo a um patamar utópico capaz de decidir meus dias pelo sorriso ou pelas lágrimas - estas, de certo, mais freqüentes, uma vez que esse sentimento onipotente de mim não pode ser correspondido por um simples e único motivo: não é. Não ser retira todas as possibilidades de o sonho mudar de plano, sendo ele sonho, por natureza - ao mesmo tempo há uma mistura de esperança com conformismo: aconchego-me a gostar e chego a gostar de gostar, ainda que saiba ser sonho e sempre sonho, e com isso eu acho que talvez haja a possibilidade de eventualmente eu poder conseguir lidar, após toda essa enrolação insegura de palavras; mas digo isso por me julgar já sabida em manter o sonho no plano do sonho querendo e não podendo mudá-lo por simplesmente ser (sonho) por natureza. Tão natural como perigoso, tão instintivo quanto ficar próxima ao perigo de propósito, sendo eu tão paradoxalmente frágil - de uma fragilidade felizmente estática, pois, se dinamizada, o perigo chega tão perto que me absorve, ou por mim é absorvido, ou nos absorvemos mutuamente e nos fundimos numa coisa só que me torna a agressora e a agredida, a vítima da própria culpa - mas, sendo eu estaticamente frágil, pareço gostar do perigo e querer chegar ao instante da quase-absorção-mútua, ao limite entre a gota que se segura, e a que se desprende. (Respiro). Abro meu peito, entrego-lhe o coração, mas Lhe não o quer e o coração pulou para o chão num ato suicida inconseqüente e até involuntário já que caiu porque bateu forte demais sem algum abraço que o segurasse forte, apertasse forte, não a ponto de sufocar pois ainda respiro, mas carinhosamente forte do jeito que só aquele cujos braços poderiam me segurar me segurariam, se o quisessem, se o sonho não fosse por natureza sonho. No entanto, essa imagem do meu coração pulando independentemente vivo me parece nojenta - e eu nem a enxergo com os olhos para acusá-la de minha náusea diária ou justificar meu desconforto de ter uma esperança mínima que seja e dó da minha própria solidão de um ele só.
Poucas horas de sua ausência e há ainda um mês de coma.
"Fica tranqüila."
Vivi - 1:16 AM -
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Sábado, Novembro 18, 2006
Can't do a thing with ashes
But throw them to the wind... - Now and then, Blackmore's night
I - Fazia frio - não tão frio assim... Para alguns estava até calor e era de se estranhar que alguém estivesse com frio. Esfregava as mãos nos braços descobertos, não só para aquecê-los - mas para que ele percebesse. Talvez fosse dessa vontade que surgia meu frio. Foi quando ele pegou sua camisa encostada na cadeira e a jogou em mim, tão rápido, tão descuidoso, de forma que ela caísse já aberta e cobrindo meu corpo. E, apesar do comentário de um terceiro, de uma ironia rica, "que romântico", talvez só mesmo meu coração tenha percebido o tamanho daquela gentileza, que, confesso, eu quisera provocar.
Vesti a camisa, senti seu abraço. Ele estava mais perto de mim agora, não simplesmente na minha frente, como ele antes estava e continuava; magicamente estava comigo. Tenho certeza de que nunca eu havia antes me sentido tão próxima a ele: vestia-me dele. Encolhia-me na camisa grande, que me acolhia tão carinhosamente como eu sei que ele podia me acolher.
II - O frio passou, passou um tempo e eu soube que minha mãe havia chegado à escola para me buscar. Fiz cara de indiferença, com uma lamentação razoável de qualquer despedida. Mas, por dentro, sofria. Sairia da sala dele, perderia sua presença única, despir-me-ia de sua camisa. Seria eu mesma, somente, mais uma vez, sem ele - e era sempre assim. Estar com ele era meu melhor momento semanal. Gostava dele, mas de um gostar diferente. Não o gostar de mulher para homem, não o gostar de filha, não o gostar de amigo. Talvez uma mistura de todos eles; parecia o gostar mais forte de tudo. Amava-o. Ele era como deus; eu, que não acredito em deus, tinha nele a imagem máxima de perfeição. Gostava da forma com que ele olhava para mim e para os outros. De como olhou para uma barata morta. De como ele falava. De como ele pensava: ele pensa tão diferente! Cada visita à sala dele era surpreendentemente boa. Um lugar de conforto; o único - tão natural e independente de tudo. Podia passar horas e horas em silêncio na sua presença, apenas lhe assistindo, numa contemplação pacificamente intensa que talvez só eu sentisse.
Mas eu tinha que ir embora. Levantei-me para me despedir, e, de todos que estavam na sala, terceiros, quartos, quintos, talvez só meu coração tenha mesmo percebido a gentileza maior ainda quando ele leu meus pensamentos e atendeu aos meus invisíveis suplicantes pedidos: fica com a camisa... Outro dia você me devolve. Agradeci educadamente; por dentro, meu coração batia mais alegre. Abracei-o e saí.
III - Pela primeira vez senti o conforto da sala dele fora da sala dele, a paz da presença dele em sua ausência. Encoberta pela camisa, sentia um material isolante que eu sabia que me estava acolhendo carinhosamente numa proteção contra tudo que há por aí fora. A angústia de ser agredida pelo fato de eu viver foi acalmada, amenizada por aquele manto azul que me vestia de força, e que me vestia dele. Tinha comigo o abraço constante dele. Tinha o que eu buscava toda vez em que saía da sala, qualquer resquício, qualquer vestígio da presença dele, um som, uma cor, um cheiro. Ah, o cheiro. Lembrava-me dos nossos presentinhos trocados, palheta, desenho, incensos, cd, pedra, chocolate, pétala de rosa seca. Mas o cheiro ia embora, logo saía da minha roupa, do meu cabelo, e eu buscava-o em incensos, como na tentativa de senti-lo mais próximo, de sentir-me envolvida nele. Agora, havia a camisa. Havia o seu cheiro, ah, eu queria ficar o tempo todo com a camisa dividida entre os braços, abraços, e minha respiração. Não era a primeira camisa dele que eu vestia, houvera a camiseta cedida cavalheiramente em um dia em que me encharquei de chuva. É sempre de um cuidado surpreendente.
IV - Despi-me em casa. Tirar as duas roupas juntas, a minha dentro da dele, e coloca-las na cama deixou-as de um jeito tão bonito, tão enlaçado, num amor de roupas que se traduzia em mim num sentimento único meu que era só dele. Tinha sua proteção comigo, seu abraço, seu cheiro. Estaria ele comigo por uma semana, até que o reencontrasse e devolvesse a camisa. O quanto gostei de ter aquela camisa me envolvendo talvez seja irracional. E talvez só mesmo meu coração tenha percebido a sutileza que foi aquele caso de amor.
Vivi - 12:18 PM -
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Segunda-feira, Setembro 25, 2006
"Oh, metade amputada de mim
Leva o que há de ti
Que a saudade dói latejada." - Pedaço de mim, Chico Buarque
Não minto Mas é melhor não dizer mais nada...
Humano, demasiado humano Divisão do Eu
Tenho sido o suficiente? Meu cansaço denuncia a fragilidade. Eu, dividendo, devo ser maior que o divisor, sendo este os estudos e deveres. Se for exato, esgoto-me: resto zero. Fico com cara de vestibulanda neurótica, e é essa, às vezes, o único rosto que tenho.
Se sobro um pouco, faço nova divisão, desta vez pelo que me agrada: música, livros, amigos. Porém, esse novo Eu-dividendo é que tem sido insuficiente para eles; de qualquer forma, acabo-me. E até o sono é insuficiente.
Venho diminuindo. O que sobra de mim é cada vez menor, e, creio que vai chegar - aliás, já chegou - o momento em que passo a ser menor que os estudos. Cá está minha fragilidade: viro uma fração. Sou Metade. Sou Pedaço de mim, e começo a me perguntar onde perdi o que me faria inteira - a Amiga.
E, em meio à matemática Engulo um grito desumano: pois tive 9 aulas de geografia na última semana.
Que faremos nós da nossa humanidade?
Vivi - 9:17 PM -
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Sábado, Setembro 09, 2006
"Prolixo afastamento
Do escrúpulo e da vida no momento... ." - Fernando Pessoa
Seria tão perfeito - se tudo fosse perfeito...
Que saudades do tempo da delicadeza, tempo em que não vivi,
a começar pelo perdão que tu não me deste
a chegar ao nosso encontro, que não aconteceu.
Que falta sinto eu dos telefonemas que não te dei
Das surpresas que não te fiz,
Daquele passeio que não demos ao parque,
Daquela vez em que não vieste cá,
ou que eu não dormi aí.
Que saudades.
Tu, amiga, dona de cartorze poemas meus
e de tantos outros catorzes que ainda não escrevi.
Quero esquecer que te amo
Mas não esqueço que tu me abraçavas
Que tu me querias muito
E que agora só te tenho imagem
e platônica amizade.
Aqui jazo
Eu vou ser sincera com você:
Não tenho nada de bom para escrever. Se quiser conversar comigo, talvez se decepcione. Meu comportamento está como de eremita paciente, e, apesar de eu poder disfarçar, por horas sou transbordante melancolia. Você se assusta. Não chegue perto se não quer me ver.
Claro que eu queria, por você, ter coisas lindas a dizer, flores a lhe dar, palavras de alegria pra recitar ao luar - esta lua cheia que me lembra, romanticamente, que ela nunca mais será tão cheia como fora (ou seria) no tempo da delicadeza. Entendo que tirar um sorriso de você seria uma grande gratificação.
Mas não consigo, e cá está minha sinceridade:
Não me resta mais nada. Não sou capaz de dizer frase positiva que não tenha um advérbio de negação. Perdi tanta coisa esse ano, que - meu deus, já faz tanto tempo - podia listar e talvez não fossem parecer motivos tão valiosos para você, mas que para mim... Para mim eram-me, e a cada dia que passo na esperança quase inexistente de recuperá-los, perco um pedaço de mim. Eu vou-me desmanchando por aí, e os primeiros cacos que se foram eram, com certeza, os sorrisos. Que, ao menos, um desses já tenha caído frente a seus olhos.
Peço perdão - estou sempre a pedir perdão - pois vivo erroneamente cada segundo. A consciência me cobra que eu peça desculpas a alguém, e, não sabendo a quem, vai a você.
Queria que alguém, podia ser você, me viesse dizer que vou morrer. Assim, sentaria feliz a escrever as últimas palavras, o testamento das minhas inutilidades, o último post, e o epitáfio: Aqui jazo.
Vivi - 9:56 PM -
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Terça-feira, Julho 25, 2006
"Ando à procura do espaço para o desenho da vida." - Cecília Meireles, Canção excêntrica
De volta à solidão irremediável, à já conhecida dor de cabeça e à irritação corporal. Tenho vontade de calar a dor afundando o rosto em água fria, na qual pudesse chorar sem ninguém ver, e gritar sem ninguém ouvir, e morrer afogada, sem ninguém notar.
Não sei até que ponto minhas fraquezas físicas se ligam ao meu abismo interior. Um abismo cuja pá foi a saudade de uma amizade que morreu. Vejo agora que o buraco cavado situa-se no meu coração, e que nele caí, no abismo da saudade. Talvez dessa queda é que me venham as dores físicas.
Canso de falar metaforicamente para embelezar essa tristeza, que de bela não tem nada. Tento usá-la para construir algo, mas isso só me é distração: ela não sai de mim, ela, a tristeza, ela a saudade, ela a amiga.
Queria que cada pontada na cabeça mandasse embora uma parcela da angústia. Assim, (não me livraria da angústia...) morreria de sucessivas pontadas na cabeça antes mesmo que a angústia se fosse por completo.
Já não agüento quase abrir os olhos toda manhã ou a qualquer hora do dia. Às vezes a vontade de morrer é tão grande que tenho a esperança mínima e infantil de morrer num piscar de olhos. E assim vou esperançosamente piscando, e me decepcionando. Abro e fecho, pensando morrer no próximo piscar. E assim vou vendo, vivendo, dormindo e acordando, nascendo e morrendo a cada piscar de olhos.
Não sei mais de que importa minha existência. Se eu ainda fosse alguém grande eu faria algo pelo mundo e gozaria de auto-afirmação. Mas o que sou nada importa, a não ser em desprezíveis detalhes. Lamento a consciência...
Eu pisco, pisco confiando que um dia não terei mais força para reabrir os olhos...
E, como desejado, acontece.
E eu acordo toda manhã, descobrindo que era apenas sono minha morte ilusória.
Mas ainda um dia em breve morrerei, e esse é meu único consolo.
Vivi - 2:05 PM -
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Sábado, Junho 03, 2006
"Y no te pido nada más que lo que tu me quieras dar,
El cielo conocí Y en el cielo quiero morir." - Elefante, Si tu Quieres
- I - Outro dia, estava um sujeito de boina e bengala na rua. Era um senhor de três meses de idade a dividir pipoca de esquina com as pombas da Avenida Ibirapuera. Havia acabado de sair de uma consulta com seu médico cardiologista, na qual ficara sabendo que sua saúde, seu coração, estava estabilizando-se. Era um progresso.
Mas... De que adiantava progredir? Que tinha ele feito desde que nascera? Havia ele só regredido.
De repente, entrou numa crise existencial. Não era necessário saber que ele estava vivo, pois sentia as batidas cardíacas descompassadamente, sentia a dor no peito que, de tão intensa, só podia ser Vida. Não, era preciso saber que toda sua idade vivida tinha valido a pena, cada dia, cada passo, todo ataque e toda defesa, até mesmo a inércia.
Lembrou-se das pessoas que ele tentara ajudar, dos sorrisos e lágrimas que ele, com esforço, despertara nos outros. Lembrou-se de quando ajudou um deficiente no ônibus, de quando encharcou-se de chuva, quando colheu uma flor...
Interrompido por buzinas e por um barulho insuportável do freio de um ônibus que passava, percebeu que não havia mais pombas próximo a si. E ele ainda segurava o pacote de pipoca... será que um dia chegou a haver pombas lá?
Contrariado, voltou às lembranças. Tinha desistido de mudar o mundo, queria apenas fazer parte dele, aprender a fazer parte dele, desde mundo estranho, diferente do mundo do senhor de boina.
Pensou nos seus pais, tinha pais? E quantos pais! Ele era fruto da humanidade, da sociedade, filho da pseudo-liberdade, caxias nas regras de seus princípios morais - os quais ele acreditava valer a pena seguir.
Lembrou da vista da cidade pelo topo do prédio do Banespa no centro de São Paulo, de como imaginou todo mundo, de como viu formigas lá de cima. Quisera ser uma borboleta, uma mosca ao menos, para se jogar do prédio, mas infelizmente ele também era uma formiga.
Finalmente lembrou de seus amigos. Tinha amigos para se lembrar? Tivera. Bem que ele se conformava em tê-los perdidos - desde que ele tivesse a certeza de que o encontro fizera uma diferença boa na vida do outro.
- II - Naquele momento, aproximava-se uma moça, saindo distraída do Medical Center Paulista - eu. Como de costume, fui até o pipoqueiro da esquina comprar um saquinho. Sentei-me na calçada e joguei pipocas para os pombos, distraidamente reparando no vai-vem da cabeça do pombo para bicar a comida. Ainda vagando, tentei lembrar-me de uma prosa de Vinícius, dizendo em voz alta palavras soltas desse trecho:
"Deus sabe que, entre gatos e pombos, eu sou francamente pela primeira espécie. Acho os pombos um povo horrivelmente burguês, com o seu ar bem-disposto e contente da vida, sem falar na baixeza de certas características de sua condição".
Reparei que o velhinho olhava para mim, ou melhor, para as pombas também, imóvel. Esperei mais um tempo e, estranhando a imobilidade numa esquina, ainda mais segurando um saquinho de pipoca, fui perguntar:
- oi...er.. o senhor precisa de alguma coisa? Quer ajuda para atravessar a rua?
Ele olhou-me com seus olhos enrugados.
- Não, jovem, obrigado... Eu preciso de um amigo.
E, devido à minha expressão de susto (eu não estava preparada para essa resposta), ele continuou:
- Não quero morrer sozinho. Preciso de um amigo para me dar a mão no último momento, para eu me sentir vivo até que eu vá embora de fato.
- De todas as amizades que o senhor teve ao longo da vida...
- Todas sepultadas - ele me cortou.
Fiz silêncio, fiquei constrangida. O senhor de três meses abaixou a cabeça. Resolvi mudar de assunto. Perguntei-lhe o que ele tinha.
- Meu coração está apertado, jovem. Tenho arritmia e pressão alta.
E, como num impulso, fixei os olhos em sua mão que segurava o saco de pipoca salgada. "Isso não lhe faz mal?"
- III - - E isso devia me importar? Quero esquecer dos males e fazer valer a pena o tempo que me resta.
- Mas senhor de boina, de tudo o que o senhor viveu até agora, de todas os amores e amizades, nenhuma delas lhe fez sentir que a vida valeu a pena? Como uma satisfação infinda, pelo simples fato de ter vivenciado tais sentimentos...
Ele aquietou-se, olhando para onde antes havia pombas.
- Difícil... Acho que não.
Eu quis chorar. Estava prestes a pedir desculpas e a sair correndo quando ele acrescentou:
- Mas teve um... um encontro.
- Fala mais.
"Uma vez, quando eu era jovem, estava andando a passos largos na rua, passando por uma das piores crises de dor no peito. Meu coração doía a cada batida. Fiquei desesperado, saí correndo, quase me jogando no chão. De repente, trombei forte com alguém, devo tê-lo machucado. Mas o choque me acordou, o peito ficou calmo. Arfando, suspirei "Obrigado", ao que o outro me achou louco (obviamente esperava um pedido de perdão pela trombada, em vez de um agradecimento). E ele foi embora. E desde então eu tive a certeza, não me pergunte como, de que eu me havia encontrado com um anjo.
E no resto da minha vida esse anjo apareceu nos meus sonhos mais felizes, dos quais eu acordava sorrindo. Por saber que um dia eu encostei nele.
Só que logo vinha a questão: por que nunca mais o senti? Será que o feri tanto com o baque? Culpa...
Mas agora eu entendi que, se o fiz, não foi intencional, e que já fui premiado por tê-lo conhecido. Foi breve, mas foi no momento em que eu mais precisava de um anjo."
- IV - Eu ouvia, sentindo o peso de cada palavra, emudecida. "Anjo", ele dizia, num tom de voz que parecia suplicar inconscientemente por sua volta. Pobre velhinho de boina.
Eu queria dar um abraço nele. Mas hesitei, tinha acabado de conhecê-lo. Continuei parada, enquanto ele finalmente voltou a comer pipoca e a olhar para o chão vazio de pombo.
De repente, um engasgo. E antes que eu pudesse fazer alguma coisa, o senhor de boina estava no chão, tossindo, sufocado.
Abaixei-me depressa e tentei levantá-lo pelas mãos, mas ele não parava de se contorcer, faltava ar - faltava um amigo.
Antes de chegar ajuda, chegaram pombas, beliscando avidamente a pipoca espalhada do saquinho caído. E entre as tosses e os ruídos, o velhinho disse sua última frase... "o pombo nunca fica sozinho".
Descansei sua mão mole, guardei o velhinho no coração e fui embora, deixando para trás o senhor, as pombas, e a boina caída ao lado.
Vivi - 12:31 AM -
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Quarta-feira, Fevereiro 08, 2006
"Just close your mind" - Just let me breathe, Dream Theater
Como ser triste em 10 passos altamente eficazes!
A tristeza plena não depende apenas de como você está agora. Não é apenas chorar, se desiludir e partir o coração. Ela também implica negar as esperanças e rejeitar a felicidade por tabela, de propósito. "Pra que ter esperança?" - Dizia eu.
Oras, porque se não plantar árvores, ocorre erosão com qualquer chuva. A tristeza é você saber de tudo isso e não conseguir mudar.
- Quê? O triste sabe que é triste, sabe que escolheu o caminho nihilista erroneamente, mas não há caminho de volta. O que estava triste passou a ser triste.
- Como assim? Como assim o quê? Como ser triste? Bom vamos lá.
1º passo Apaixone-se por alguém impossível. (Esse é um passo difícil, pois você não escolhe). Em seguida, descubra que é impossível, e conforme-se. Não quererá mais nada, porque...
2º passo ... não pode querer nada. Pense que a Esperança nada mais é do que ilusão. "Esperar" é arriscar-se à toa. É poder se desapontar, desiludir. É melhor perder as esperanças de vez a ter falsas esperanças. Esse também é um passo difícil, pois Esperar é humano. Aprenda com cada tombo, aprenda a não se levantar de novo, já que vai cair de novo mesmo... Fica no chão, que não tem a dor da queda.
3º passo Desacredite. No que quer que seja, se você acredita agora, comece a descrer. Deus? Perca a fé, não há ninguém a quem culpar por nossas culpas, não há ninguém para traçar o nosso destino, senão nossos próprios pés. Como você ama platonicamente, desacredite no seu amor, ele não existirá afinal, pois você já se conformou de que ele é platônico.
4º passo Pense na vida como blocos de cimento: cada um tem seus blocos, e vai empilhando de forma a montar uma escada, a escada da vida. Uns sobem mais, porém a base fica mais insegura, feita às pressas. Outros constroem sólida base, sobem razoavelmente alto. Os mais confusos, constroem escadas em espiral. Você? Você além de confuso, quer ser triste: construa uma "escada em espiral", mas esqueça de levantar os degraus. No final, terá ao seu redor um muro intransponível.
5º passo Rejeite qualquer ajuda! Seus "amigos" (já terá desacreditado na amizade) tentarão te fazer feliz, e você não pode ser feliz se quer ser triste. Não, não. Ignore qualquer conselho que venha para o teu bem.
6º passo A contrastar com o 5º, leia livro de auto-ajuda. Ele apresentará caminhos para a felicidade tão fáceis que você se frustrará de não conseguir ser feliz lendo. (Não confunda: Não precisa tentar ser feliz. Isso é sempre um reflexo automático).
7º passo Faça-se de coitada. Isso afasta os amigos, ou o que você já estaria chamando de "amigos entre aspas", que percebem que você realmente estará fazendo manha. Outros, no entanto, podem te dar atenção e mimar. Esses farão com que você se apegue à sua própria tristeza inconscientemente, pois terá mais carinho (e você gosta de carinho). Assim, com qualquer desânimo você fará tempestade, e se pensará no fim do poço. Chore excessivamente com qualquer cisco no olho.
8º passo Ouça música triste, leia poemas tristes, estude filosofia pessimista, converse com pessoas tristes. Assim você encontrará aqueles que realmente te entendem, sabe? Que fingem sentir o mesmo, ou sentem o mesmo, ou sentem realmente o que você finge. Enfim, pessoas tristes são os melhores professores de tristeza. Copie as lástimas deles.
9º passo Pense que você faz mal para o mundo. Você espalha tristeza, você desanima o grupo, você preocupa o amigo, você não satisfaz sua família. Esqueça o que você é. Queira ser o que você não é, mas se conforme em não o ser.
10º passo Agora que você já não acredita em nada, amor, deus, amizade... Agora que você já perdeu as esperanças, agora que você já não quer ser nada, agora que você pode morrer amanhã em paz... agora que você se fechou num muro e negou a felicidade...
Arrependa-se de ter seguido os 9 passos até agora e tente voltar atrás.
- Quê??
É. Não conseguirá. O caminho da descrença não tem volta. Arrependa-se de querer ser triste. De ter negado amigos, de ter erguido um muro. Deseje não negar a felicidade automaticamente. Mesmo que se arrisque, mesmo que caia. Entenda que o importante é viver os momentos, em vez de deixar de viver para se proteger. Deseje ter esperança, deseje querer! E não conseguirá mais...
Pronto, você é triste.
Agora, para piorar e finalizar, faça uma auto-análise. Perceba o quanto você errou em definitivo. Olhe-se ao espelho e verá uma incoerência: uma pessoa que tem o reflexo humano de esperar, mas se policia já automaticamente, sabendo que não devia policiar. Uma pessoa que quer ser feliz agora, porém, quando vem a felicidade aproveita pouco, pois Felicidade traz esperança, e isso você nega automaticamente, embora já não queria mais negar. Incoerente, não? Contente-se. Não há mais volta.
Verá também que ninguém acreditará em você. Ninguém vai te entender. "Como é possível não esperar nada? Como você... quê?"Se você quiser continuar mais além, tente ser feliz, tente se livrar desses vícios automáticos. Tente voltar a acreditar em Papai noel, depois de conhecer a verdade.
Não conseguirá ser mais feliz.
Você é um Triste-pleno! Parabéns, parabéns.
Ou sinto muito...
Vivi - 3:17 AM -
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Terça-feira, Janeiro 24, 2006
"Taking all in desperation
leave me now to rest in peace
Let me rest in peace..." - Stand Away, Angra
Visitante
Outro dia, bateu-me à porta uma figura familiar.
- Quem és tu?
Mas não revelou-me o nome. Estando eu sem movimentos, ele fez a menção de entrar, o que me levou a, automaticamente, expremer o corpo contra a parede para que ele pudesse passar.
Maldito ser! Parou no meio do caminho, deixando nossos corpos muito próximos... Minha respiração acelerou, e eu senti que havia alguma força abstrata de aproximação entre a gente. Era como se meu corpo fosse compatível com a essência daquele ser.
Fui seduzida, e rendi-me. Conforme nossas mãos se encontravam, eu sentia sua energia entrando em mim, enrolando-se na minha, apertando-me, tatuando-se em meu interior. E ao mínimo toque dos lábios, eu soube, simplesmente soube, que aquela alma, com a qual já estava intensamente envolvida, eu soube que se chamava Tristeza.
Visitante II
Vez por outra, aparece-me outra visita. A Felicidade, a Esperança, o Entusiasmo, essa galera aí. Mas a Tristeza não se dá bem com elas, e as repulsa. No entanto, sou amiga da Saudade e do Medo. Ah, esse é outro que me domina, acho que ele - o Medo - está apaixonado pela Tristeza - que por sua vez, está enrolada dentro de mim.
Vivi - 2:34 AM -
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Sábado, Janeiro 07, 2006
"Para sempre é sempre por um triz" - Ana Carolina, Beatriz
Anestesia
Caros leitores, quando fordes extrair o ciso, ou em qualquer oportunidade em que o dentista vos aplicar uma anestesia em grande parte da boca, não deixais de pronunciar "ácido acetilsalicílico", a palavra mágica!
- Se começar a doer, é para tomar remédio com Paracetamol.
- "Parathetamol?"
- Sim, só não pode ter ácido acetilsalicílico...
- thim, áthido athethil thalithílico... Hahahaha
(...cuidado com a baba na risada).
Para sempre
Conheço dois tipos de pessoa: a que não acredita em eternidade, e a que jura eterno o que nem pensou. No primeiro caso, "para sempre" não existe, enquanto no segundo, usa-se tão constatemente a expressão que ela já não carrega mais seu significado.
É tão leve e tão fácil sair um "para sempre", que a rica expressão perdeu seu encanto, e reduziu toda a eternidade a um mero espaço de tempo, o "por enquanto".
Amigos para sempre. Eu te amo para sempre. Eu sempre estarei do seu lado. Para sempre lebrarei de ti. Prometo ser-te fiel, amar-te e respeitar-te na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, todos os dias na nossa vida. E foram felizes para sempre.
E onde está o conteúdo, se o "para sempre" agora só carrega a beleza poética de um final de conto de fadas?... Cada emprego dessa expressão devia selar um compromisso, em vez de exercer a simples função sintática de adjunto adverbial de intensidade.
Pois não é preciso ser eterno para que seja forte! Não é preciso dizer "amo-te sempre" quando se quer dizer "amo-te MUITO"...
Chega de ignorar o peso das palavras e a importância do tempo. Há valores fortes que parecem eternos, e no entanto... "para sempre" é sempre "por enquanto".
Vivi - 2:13 AM -
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Quarta-feira, Dezembro 28, 2005
"Faith for the few
And rites that will make us so brave, so new .
We laugh and we cheer for a Happy New Year
Happy?" - Pain of Salvation, New year's eve
Termino o ano com um post especial de final de ano. Estive sem postar pois dezembro foi tortuoso, apesar das férias. Para quem não me conhece, deixo aqui registrado a última definição que dei de mim mesma, para a Ju:
Eu sou um fracasso de vida, coberta de uma fantasia que engana todo mundo.
Posso parecer pianista, musicista, desenhista, filósofa, mas no fundo não sou nada, sou uma criança chorona suicida que faz um monte de besteira quando entra em crise.
É assim, como este "fracasso de vida", que eu fecho 2005. Ano de muito crescimento, bastante independência, porém tudo com o seu preço: e foi caro. Ano de se lastimar, mas que eu precisava viver, sim. Um ano de provas: a cabeça foi testada no vestibular e não passei. A saúde (física e psicológica) foi testada em Harvard. O coração tem sido testado e lá vem mais um fracasso... E apesar de tantos elogios, de anjos em minha vida, de gente especial preocupada comigo, de uma família brilhante, apesar de tudo isso eu...
...falho.
Retrospectiva pessoal 2005
Cinemas: O fantasma da ópera, Crash, A chave mestra, Jogos Mortais II, Harry Potter IV.
Shows: Angra, Pain of Salvation, Dream Theater, Judas Priest/Whitesnake, Richie Kotzen.
Melhor dia do ano: 21/8
Pior dia do ano: 24/6
Observação: São Paulo Tricampeão Mundiaaal!
CD do ano: Dream Theater - Octavarium, Kiko Loureiro - No Gravity
Música feliz do ano: Your love - The Outfield
Música triste do ano: Tears - DT / Kamelot - Abandoned.
Em 2005 eu:
- Fiquei amiga da Fernanda;
- Aproximei-me mais do Vitim;
- Fui a Louca da Janela;
- Fui para Harvard;
- Conversei mais com as pessoas;
- Tomei mais remédios do que nunca;
- Me apaixonei, e me desiludi;
- Andei até a Fonte Petrópolis a pé;
- Toquei baixo na audição;
- Vivi o fim do Acta;
- Senti saudades da amizade da banda;
- Saí bastante no segundo semestre, à força, por mim mesma;
- Andei por Moema, sem rumo, passeei no parque, do nada;
- Bati recordes de Skype;
- Acordei a Fernanda (haha);
- Fiquei obcecada pelo Che Guevara;
- Comecei a estudar Schopenhauer;
- Tomei muito café;
- Fui a bares, lugares que nunca pensei que iria;
- Dormi em quase todas as aulas de Biologia (há coisas que nunca mudam);
- Vi show das 3 bandas do coração, agora posso morrer em paz;
- Comi pouco, dormi menos ainda;
- Atravessei a feira tocando violão e cantando Josie com o Vitim;
- Fiquei doente e fui ao pronto socorro (raridade);
- Chorei muito;
- Mudei o rumo da minha vida: de Ciência da CPU para Jornalismo;
- Prestei Fuvest e fui pior que no ano passado;
- Decorei meu quarto;
- Fiquei mais próxima de pessoas especiais;
- Quase não vi minha família;
- Vi o Sol se pôr abaixo de mim;
- Me rendi.
Em Harvard eu:
- Conheci culturas diferentes;
- Aprendi a me virar sozinha;
- Aprendi Jazz e japonês;
- Conheci medo, solidão, sofrimento, saudade, tive faltas de ar, choros e desesperos;
- Comprei muitos, mas muitos cds.
- Vi um esquilo saindo do lixo;
- Fui ao mercado de madrugada, de pijama;
- Tomei muitos Frappuccinos;
- Andei na chuva;
- Passei dias sem comer, noites em claro;
- Caminhei sozinha em volta do lado, ou no Yard, de madrugada;
- Tive orgulho de ser brasileira;
- Ouvi o São Paulo ser campeão da Libertadores na rádio;
- Quase fui atropelada por uma ave grande;
- Mudei.
Na retrospectiva de 2004, eu disse que o ano foi difícil e que estava orgulhosa por ter sobrevivido a ele. Este ano, usar o termo "sobreviver" não é tão fiel, porque parte de mim morreu.
Enfim... 2006 vem aí, fazer o quê.
Vivi - 4:16 AM -
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Segunda-feira, Dezembro 05, 2005
"As we walk through the ashes I whisper your name" - Pain of Salvation, Ashes
Novo(a) Documento de texto
Eu atravessei as portas do inferno
Andei pelas chamas e não me queimei
Pisei descalça sobre pedras e não me cortei
Choviam cacos de vidro,
Criaturas do mal me cortavam
rasgavam ferozmente
E eu não sangrei.
Eu vi o ódio nos olhos de fogo e não me comovi:
Estava forte, feita de um material intransponível.
Por que aquele lugar haveria de ser pior que a Terra?
Foi quando eu percebi que estava sozinha.
Procurei em vão um Amigo entre as chamas
Mas lembrei que os anjos vão para o céu.
A partir daí, senti o calor do inferno
a pele ardendo, o suor escorrendo,
os cacos de vidro perfurando minha pele,
a raiva daqueles que me rasgavam.
O inferno estava dentro de mim,
e eu não me livrava do muro que eu mesma construíra.
Saí correndo, sangrando,
desmontando, morrendo,
A fumaça me cegava, senti falta de ar.
Ar...
Espremi os olhos e enxerguei uma sombra
Minha última esperança foi ver a ti, amigo,
Mas não passava de uma ilusão:
tu estás no céu,
agora, tão longe de mim.
Ainda assim corri para te abraçar.
no momento em que te alcancei,
Senti a lança perfurar meu peito:
Senti a pele borbulhar de fervura
E continuei abraçada, agarrada a "ti".
Suspirei teu nome,
E morri.
Vivi - 5:06 PM -
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Sábado, Novembro 19, 2005
"I need something to blame for this pain
I try, I fail, I fall, like anyone you know" - Pain of Salvation, Lilium Cruentus
Onipotência humana
"Você só está assim porque quer." Mas a tristeza seria culpa do próprio Triste? Muita gente diz que sim. Que a felicidade e o bom-humor são frutos da nossa vontade. Pergunto-me até onde vai o poder de auto-controle humano. Os que chamamos "Tristes" seriam equivalentes a "Masoquistas" se esse pensamento fosse considerado, já que estariam para baixo por pura opção. Além do mais, a frase clichê "Querer é poder" sempre me soou muito utópica.
"Cada um é dono do próprio mundo". Não consigo acreditar que temos tanto controle sobre o próprio humor. Essa idéia de responsabilidade é perigosa. Alguém que já se culpa demais sente-se pior ainda ao ser acusado de Culpado pelo próprio estado. A partir desse ponto, um conselho inicialmente otimista - e, provavelmente bem-intencionado - acaba por trazer mais tristezas, posto que apenas engrossa a lista de culpas do réu. Este, para mim, é inocente: pode não ser total a inocência, porém não temos esse controle, ou essa culpa, do próprio humor.
Afinal, se fôssemos Onipotentes, muitos seríamos "Oniculpados".
Controle sobre a tristeza.
Essa antítese de Razão x Sentimento é, na realidade, um paradoxo um tanto insensível. Controle vem do lado racional da balança, ao passo que o humor vem do outro lado, seja ele sentimental ou instintivo. Possível é se mascarar de razão, enganar a si mesmo, mas sem ignorar os outros dois pesos: faltaria parte de nós mesmos. E não sei se os incompletos são felizes.
Pensem o que for, eu só digo que se o humano é assim onipotente, eu não sou humana.
Vivi - 12:22 AM -
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Sexta-feira, Novembro 11, 2005
"I've got a right to be wrong
My mistakes will make me strong" - Joss Stone, Right to be wrong
Última prova
Fiz na última 2ª feira a última prova do colégio, de todos os tempos. Mal posso imaginar que agora tudo vai mudar, nunca serão os mesmos professores-fiscais, as mesmas pessoas pedindo cola, o mesmo cabeçalho para preencher. A prova não só foi o último simulado antes do vestibular, como também representou o fim de uma fase, o que me deu um pouco de susto, falta de ar, tremedeira, formigamento, vontade de correr em círculos...
O mistério do ralo
Estava eu na minha escola de música, sentada num degrau, com um ralo de cada lado. Batucava no meu tênis enquanto aguardava a aula, quando ouvi um barulho vindo do ralo.
- Xii... - pensei
Esperei um pouco e, como nada acontecia, voltei a batucar. De repente, ouvi o mesmo barulho. Olhei para o ralo, e vi de relance algo se mexendo. Meu impulso foi sair correndo, para o lado oposto, no entanto, não querendo mostrar meu desespero - havia pessoas olhando - levantei-me devagar, calmamente, olho fixo no ralo, e virei... Virei para o outro lado. Porém, havia outro ralo, e (pimba!) lá estava o barulho. Um bico, asas...? Ah, um passarin... no ralo??
Fiquei como tonta, parada, olhando de um lado para o outro, de um ralo para o outro, quando minha professora chegou.
- Eu... eu acho que vi um... passarinho no... ra-ralo.
- Quêe??
- No ralo... um... passarinho.. eu acho...
- Vivi... Não era um rato?
- Mas... tinha bico... asas...
- Vivi... vamos pra aula?
Fiz cara de lamentação incompreendida, e vi minha professora indo para a sala. Virei para uma mulher estranha que acompanhava a cena e disse:
- Você senta aqui? Se ele aparecer, solta ele?
- É... vou ficar vendo.
- ... se for um passarinho, claro - completei.
Não sei que desfecho teve o passarinho, mas ouvi gritos e aplausos durante minha aula, o que me levou a pensar que o haviam soltado. Depois da aula, perguntei para outro professor:
- Você sabe se o passarinho saiu do ralo?
Como ele não sabia a história, olhou-me com a mesma cara de "tudo bem com você?" e foi quando eu desisti de saber do passarinho.
Vivi - 9:51 PM -
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Sábado, Outubro 22, 2005
"And still they'll turn their backs on you for someone new" - Dream Theater, Just let me breathe
Saudades
Saudades antecipadas do que ainda não perdi? Talvez exista outro nome para isso: medo. A realidade futura, que cada vez mais se aproxima, está me assustando. Não adoro minha sala de aula, mas de certa forma ela já me é confortável. Vou sentir falta dessa rotina estressante, de ver todas as manhãs os mesmos rostos ainda marcados do travesseiro, com remela nos olhos, com bafo de quem acabou de acordar, com o mau-humor matutino... Dos almoços, das loucuras, das horas de violão... do sinal estridente que me manda de volta pra aula.
Não quero promessas de que manteremos contato, eu tento me conformar com o que já foi vivido, e aceitar que a rotina muda, que as pessoas são outras, outras remelas, outros humores. No entanto, ainda não estou pronta para perder certas pessoas. Abrir mão de certos abraços, de certos "bom-dia", de certos olhares... Sofro de medo e antecipada saudade.
O beijo e o abraço
Um dia me parei para questionar o significado do beijo e do abraço. Cheguei à conclusão (de que eu sou muito coinservadora e) de que, para mim. eles representam muito sentimento e são muito intensos. Pelo menos, deviam ser, e assim eu os considero. O beijo é muito mais que troca de salivas. O toque suave dos lábios, o tremor, o calor interno... a gente sente o outro, ouve a respiração, de tão perto que está, respira junto. Um dos movimentos mais íntimos, mais delicados, que devia ser guardado para poucos. O abraço, outra forma de sentir o calor, o corpo do outro. Aperta forte, sente a respiração, sente o outro...uma presença muda. É um gesto muito puro e sincero, também delicado e íntimo... Às vezes, acho que falta sensibilidade no mundo: tudo tem que ser muito explícito para que cause impacto ou provoque sensações. Precisam de cenas "Titanic" ou apelações românticas/violêntas para se comoverem, enquanto emoções maiores poderiam vir de uma música, uma foto, um quadro, um poema, um gesto...
Aperta-me forte entre as asas tuas,
Asas de um anjo que me viu no escuro.
Confia que eu te adoro, eu to juro,
E respira comigo nesse abraço puro...
Vivi - 6:05 PM -
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Sábado, Outubro 15, 2005
"I guess I held myself to blame." - Toto, I won't hold you back
Misantropia
Tem alguém ao seu redor? No meu caso, raramente tem. Não que eu me isole - talvez um pouco - mas verdade é que tem poucos "alguéns" na minha vida. Os outros são só Fulanos. Acredito que muita gente já provou o gosto amargo daquela solidão que não é física, e ficou se questionando onde estaria o Alguém que faria o momento completo.
Existem festas em que cumprimento o pessoal, converso um pouco... até que chega um ponto em que os olhos coçam de sono, o coração coça de solidão, e eu pisco. Nesse segundo, eu ouço um estalar de dedos e todos somem. Então me canso de estar sozinha e vou a um lugar vazio para ficar sozinha. Incoerente, eu sei, e no entanto, tão incoerente quanto me sentir só em meio a tanta gente: sentir-me sozinha só faz mais sentido, apesar da frase ficar um bocado estranha.
Pergunto-me se o mundo não seria uma grande festa. Vou ao colégio, ando nas ruas... Fulanos não são mais pessoas. Tornam-se mera parte da paisagem, confundindo-se entre prédios, carros e árvores por quais eu passo indiferente. Talvez uma atitude misantropa, que tento corrigir com educação.
A pergunta é: por que não busco companhia?... E termino o post aqui porque não soube responder. Contento-me em desconfiar que sou folgada e esperar que venham até mim.
Trovão
Presenciei hoje o relâmpago mais perto do que já tinha visto. Estava num lugar aberto assistindo à chuva e enfrentando medos quando alguém tirou uma foto... O tempo foi suficiente apenas para eu perceber que não tinha ninguém ali... Mal cheguei à conclusão de que o suposto Flash forte era um relâmpago, e veio o resto, um barulho tão forte que parecia tiro de revólver. A casa tremeu, eu juro, eu estava encostada numa parede. Uma rua tremeu tanto que um carro disparou o alarme.
Nem preciso dizer que fiquei em estado de choque. A primeira reação do meu instinto infantil (isso se deu em milésimos de segundos) foi abraçar alguma coisa: a parede era o mais perto. Porém afastei-me porque lembrei que a parede tinha tremido - e porque lembrei que não dá pra abraçar uma parede.
Ainda imóvel, vi as pessoas saindo com os olhos arregalados assustados, a comentar o terremoto.
- Isso foi um trovão?
Eu respondia:
- Sei lá, parece que teve um tiroteio, tentaram arrombar um carro. Mas acho que tiraram uma foto em flagrante no momento do crime.
Vivi - 2:37 AM -
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Quarta-feira, Outubro 05, 2005
"Let me tear myself apart I need to breathe!" - Pain of Salvation, Undertow
Blog III
Tendo colocado fim ao Ashes, que durou pouco mais de um ano, resolvi, agora, dar início ao meu terceiro blog, que vai durar o tempo que for preciso. Como eu "até que gostava" do antigo, reativei-o, e republiquei alguns dos textos que não queria perder. Por isso, o endereço ainda está no ar, mas não vai mais ser atualizado (se quiserem entrar, cliquem no link ali do lado).
O motivo
Para que ter um blog? Conversar sozinha, expor os textos, ser lida por pessoas que nem imagino. Correr o risco de ser pré-jugada - e, talvez, erroneamente julgada - por alguma idéia mal interpretada. Não receber comentários de quem não quer mostrar que leu, ou de quem não teve paciência para comentar. Ou receber comentários de quem leu mais por obrigação, ou nem isso, comentários de quem nem leu e comentou, por obrigação também. É por essas razões incoerentes que fiz o Undertow.
Concordamos que ler blog dos outros é muito chato: textos intermináveis de desabafo, de pessoas que fazem dos blogs o "amigo imaginário virtual" (vejam a que ponto a tecnologia chegou...). Pior ainda é ter que decifrar códigos da linguagem "messengeriana", com pontuações erradas e um vocabulário um tanto encurtado.
Seguindo os propósitos iniciais do Ashes, vou evitar estender-me muito nos textos. Ainda assim, lembro que ler o Undertow não é obrigação de ninguém. Se forem ler, que seja por interesse e que dediquem atenção, para valer a pena a minha atenção ao escrever o que será lido aqui. Acredito que, sendo isso feito, o comentário é conseqüência, ao passo que a falta de comentário representa a indiferença ao meu post. E isso, por sua vez, significa que eu falhei.
"I know the streets are cruel but I'll enjoy the ride today." - Dream Theater, Trial of tears
Vivi - 1:27 AM -
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Nome: Vivian.
Gosta de música, literatura, Che Guevara, café. Ashes